O mundo que vemos nos noticiários é apenas a superfície. Por trás dos acordos diplomáticos e das batalhas militares abertas, existe uma “guerra nas sombras” conduzida por agências de inteligência com recursos ilimitados e licença para matar. Instituições de elite como o Mossad (Israel), o BND (Alemanha) e o FBI (EUA) não apenas coletam informações: elas intervêm diretamente na geopolítica global, definindo o que é chamado de história secreta do mundo moderno. Essas organizações executam operações encobertas que podem desestabilizar governos, impedir ataques terroristas ou eliminar indivíduos considerados ameaças à segurança nacional, muitas vezes operando em segredo profundo e fora do alcance da lei internacional.
O Mossad, em particular, construiu uma reputação de agência implacável e audaciosa, conhecida por suas operações de alto risco em território estrangeiro. Um exemplo factível da sua audácia é o caso do sequestro de Adolf Eichmann em 1960.
A caçada ao arquiteto da solução final
Após o colapso do Terceiro Reich em 1945, a maioria dos líderes nazistas enfrentou o Tribunal de Nuremberg. Contudo, muitos arquitetos de nível médio da Solução Final, a máquina burocrática de extermínio de judeus, conseguiram escapar. Entre eles estava o Obersturmbannführer (Tenente-coronel) da SS, Adolf Eichmann, o homem que organizou a logística para deportar milhões de judeus para os campos de concentração e extermínio.
Eichmann fugiu da Europa e, utilizando uma identidade falsa (Ricardo Klement), conseguiu se estabelecer na Argentina, levando uma vida discreta em um subúrbio de Buenos Aires.
Para o recém-fundado Estado de Israel, a captura desses criminosos era uma prioridade absoluta. Em 1960, a agência de inteligência israelense, o Mossad, confirmou a identidade e a localização de Eichmann. Ignorando as tensões diplomáticas e a soberania territorial, o diretor do Mossad, Isser Harel, autorizou a Operação Final. Em maio de 1960, uma equipe de elite do Mossad chegou à Argentina. Após dias de vigilância meticulosa, Eichmann foi sequestrado entre o caminho de seu trabalho e sua casa, e foi levado a um esconderijo. Nove dias depois, ele foi secretamente transportado para Israel em um avião oficial, para ser confrontado por seus crimes no único lugar que os sobreviventes sentiam ser o lar da justiça.
A personificação do mal em uma jaula de vidro
O julgamento de Adolf Eichmann, realizado na Corte Distrital de Jerusalém de abril a dezembro de 1961, tornou-se o primeiro evento de alcance mundial a expor os horrores do Holocausto para toda uma geração.
A corte foi montada em um teatro comunitário (Beit Ha’am) para acomodar a mídia global e centenas de observadores. O réu, por motivos de segurança, sentou-se em uma cabine de vidro à prova de balas, uma imagem icônica que gerou intensa cobertura jornalística. Pela primeira vez, os relatos abstratos sobre a Shoah se tornaram reais através do testemunho de mais de cem sobreviventes.
O julgamento foi um evento histórico de Justiça:
As sessões foram filmadas e transmitidas em partes pelo mundo, transformando a história do Holocausto, até então marginalizada ou desconhecida em muitos países, em uma memória coletiva e pública.
Eichmann defendeu-se alegando ter sido apenas um “mero cumpridor de ordens”, um burocrata sem intenções maliciosas. Essa postura, de um homem de aparência comum que organizou a morte de milhões, levou a filósofa Hannah Arendt a cunhar a famosa frase “A Banalidade do Mal” em sua cobertura do caso.
A corte rejeitou sua defesa, considerando que ele havia agido com “consciência delitiva”. Eichmann foi acusado de 15 crimes, incluindo crimes contra o povo judeu, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. Ele foi considerado culpado em 15 de dezembro de 1961 e condenado à morte.
Sentença e execução
A Suprema Corte de Israel confirmou a condenação. Em 31 de maio de 1962, Adolf Eichmann foi enforcado na prisão de Ramla. Ele é a única pessoa que recebeu a pena capital e teve a sentença cumprida na história do Estado de Israel.
Seu corpo foi cremado, e suas cinzas foram dispersadas no Mar Mediterrâneo, fora das águas territoriais israelenses, para garantir que não houvesse túmulo ou memorial para o Carrasco.
O sequestro e o julgamento de Eichmann são a prova máxima da audácia e da implacabilidade do serviço secreto israelense.
A guerra nas sombras: conheça os bastidores do Mossad
O dramático sequestro de Adolf Eichmann é apenas uma das muitas operações secretas que definiram o serviço de inteligência de Israel.
Em Mossad: Os Carrascos do Kidon, o renomado jornalista investigativo Eric Frattini oferece um relato detalhado sobre a atuação desta agência. O livro não só aborda a caçada a criminosos de guerra como Eichmann em seus primeiros capítulos, mas também se aprofunda na “guerra nas sombras” contra o terrorismo moderno, como Hamas, Al Qaeda e Jihad Islâmica, e revela a criação da temida unidade Kidon — o braço de assassinos de elite da agência.
Com 10 capítulos inéditos, esta nova edição é uma narrativa eletrizante e documental que expõe a maneira como o Mossad molda a geopolítica global nos bastidores.






